segunda-feira, 19 de março de 2012

A indignação da elite paulista no desenvolvimento da Zona Leste

Ouço sempre piadas, criticas e brincadeiras preconceituosas em relação a zona leste de São Paulo, e isso só cresceu devido a exposição da construção do estádio do Corinthians em Itaquera.

É curioso sempre ouvir o estranhamento irônico de gente conhecida, em saber que na zona leste há o consumo de cultura de qualidade, que pessoas lêem livros, são fãs de Chico Buarque e que compram as revistas Veja e Piauí nas bancas.

É no minimo curioso, pois essas mesmas pessoas que se colocam "superiores" aos habitantes de Itaquera, tenham pensamentos tão primarios, já que são pessoas que se julgão mais intelectualizadas que os humildes da zona leste. Para essas pessoas, os trabalhadores da zona leste são todos "pobres", "analfabetos", "sem cultura", "sujos" e "mal educados"... assim como vêem os corintianos, que propaga, mesmo de brincadeira, que são "bandidos", "ladrões" e "preguiçosos".

Hoje li que a sub-prefeita da Lapa, Soninha Francine, criticou a construção do estádio em Itaquera em defesa do estadio do Morumbi. O mais curioso de seu comentário, segundo ela, é o fato que a saída do estádio saopaulino como sede da Copa de 2014, acabou prejudicando o desenvolvimento do bairro onde se localiza o estádio Cicero Pompeio de Toledo, acrentando que ali têm vários problemas urbanisticos.

Algum desavisado que ouvir a Soninha falar, pensa que ela está falando de um bairro como Itaquera, onde por decadas o poder público fechou os olhos e nunca fez obras que realmente desenvolvesse a região e agregasse uma qualidade de vida para os moradores. Mas esse bairro que a sub-prefeita se refere, é o bairro do Morumbi, um dos mais elitizados e desenvolvidos bairros da capital paulista.

Isso só ilustra o pensamento elitista da população paulistana, que consideraria normal qualquer investimento público ou privado no Morumbi e Jardim Leonor, na zona sul, mas se indigna e se agita em faniquitos quando percebe que os outsiders da Leste também têm direitos.

Ou seja, a mesma isenção fiscal, que na verdade é investimento, que serve historicamente, a indústrias de todos os tipos que muda a cara de muitas cidades brasileiras. Não pode ser dada ao clube de "maloqueiros" para uma região de pessoas "sem cultura". É essa elite que finge hoje, não saber que a Copa trará R$ 172 bilhões em investimentos diretos para o país.

Assim fica os comentaristas hipócritas, escandalizados porque a abertura do maior espetáculo da Terra será na casa dos “pretos”, dos “carcamanos”, dos “anarcas”, dos “suados”, dos “carroceiros”, dos “migrantes e imigrantes”, dos “mestiços de toda cor e sabor”.
Que se acha um cidadão exemplar, mas se rói de ciúmes, todos os dias, doido porque a empregada comprou um carro, porque o filho do porteiro vai fazer faculdade, porque tanta gente de mão calejada agora compra carne de primeira no hipermercado da madame.
Por trás da indignação seletiva de boa parte dos críticos e, mais flagrantemente, dos deboches claramente elitistas ouvidos nos escritórios, nas agências de publicidade, redações de jornal ou nas esquinas da cidade, parece existir certa repulsa diante de um avanço histórico de um movimento popular (não necessariamente no sentido político ou ideológico do termo). A construção do estádio de Itaquera causa uma náusea cujas raízes devem ser procuradas no nível do imaginário do futebol, mas principalmente na sociedade brasileira.

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